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Número de universitários no mundo cresce 169% em 24 anos, aponta relatório

Relatório global da Unesco detalha disparidades regionais e desafios para acesso e inclusão nas universidades

24/05/2026 às 09:27
Por: Redação

O total de matrículas no ensino superior global saltou de 100 milhões, em 2000, para 269 milhões em 2024, segundo compilação de dados divulgada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Este volume corresponde a 43% do público estimado na faixa etária que tradicionalmente frequenta o ensino superior, de 18 a 24 anos.

 

Apesar da expansão, o crescimento não ocorreu de forma uniforme entre as regiões. Enquanto Europa Ocidental e América do Norte têm 80% dos jovens em universidades, a taxa para América Latina e Caribe está em 59%. Nos Estados Árabes, o índice é de 37%, no Sul e Oeste da Ásia atinge 30% e, na África Subsaariana, apenas 9% dessa população cursa o ensino superior.

 

O levantamento é resultado do primeiro relatório global da Unesco sobre tendências do ensino superior, apresentado em Paris, e contempla dados de 146 países.

 

Crescimento das instituições privadas e conclusão dos cursos

Um terço das matrículas em nível mundial ocorre em instituições privadas, sendo a participação mais expressiva na América Latina e Caribe, onde, em 2023, chegou a 49%. Em nações como Brasil, Chile, Coreia do Sul e Japão, quatro de cada cinco estudantes frequentam instituições privadas de ensino superior. Por outro lado, apenas um terço dos países possui legislação que garante ensino superior público gratuito.

 

A elevação do número de matrículas não se refletiu, na mesma proporção, em aumento de graduações. A taxa global de conclusão passou de 22%, em 2013, para 27%, em 2024.

 

Desafios de acesso e financiamento

Khaled El-Enany, diretor-geral da Unesco, comentou que as estatísticas apontam para uma demanda crescente, com papel fundamental do ensino superior na construção de sociedades sustentáveis. Entretanto, ressalta que o crescimento não resultou em igualdade de oportunidades. Segundo ele, surge a necessidade de modelos inovadores de financiamento capazes de garantir educação superior inclusiva e de qualidade.

 

"A Unesco vai continuar apoiando os países na oferta de oportunidades de ensino superior de alta qualidade para todas as pessoas, por meio de iniciativas como a Convenção Global sobre a Educação Superior e o Passaporte de Qualificações."

 

Em média, o relatório aponta que os governos destinam cerca de 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial ao ensino superior. Ao mesmo tempo, políticas de austeridade fiscal em diferentes contextos têm ampliado a pressão sobre as universidades, intensificando a urgência por estratégias inovadoras de financiamento que assegurem padrões de qualidade e acesso.

 

Mobilidade internacional cresce, mas segue restrita

No período analisado, o número de estudantes realizando cursos fora do próprio país triplicou, passando de 2,1 milhões, em 2000, para quase 7,3 milhões em 2024. Desses, metade está matriculada em instituições da Europa e América do Norte. Mesmo com o aumento, apenas 3% do total de universitários no mundo estudam no exterior, e desigualdades regionais importantes permanecem.

 

Sete países concentram metade dos estudantes internacionais: Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia. Ainda assim, destinos alternativos como Turquia e Emirados Árabes Unidos (EAU) têm ganhado destaque, com crescimento de pelo menos cinco vezes no número de alunos estrangeiros na última década. De acordo com o relatório, Turquia e EAU já se aproximam da França como polos de atração.

 

O documento também indica tendência de aumento na mobilidade estudantil dentro das próprias regiões. Na América Latina e Caribe, a parcela de estudantes circulando entre países da região subiu de 24% para 43% entre 2000 e 2022, sendo a Argentina o principal destino. Entre alunos dos Estados Árabes, verifica-se concentração crescente nos países do Golfo e na Jordânia, marcando mudança em relação à predominância anterior da Europa Ocidental e América do Norte.

 

As convenções globais e regionais da Unesco, já ratificadas por 93 países, buscam facilitar o reconhecimento internacional de diplomas e a garantia de padrões universais de qualidade, fomentando a confiança nos títulos universitários ao redor do planeta.

 

Mulheres avançam, mas liderança acadêmica ainda é desafio

O relatório revela que, em 2024, a presença feminina superou a masculina no ensino superior global, com 114 mulheres matriculadas para cada 100 homens. A paridade de gênero foi atingida em todas as regiões, com exceção da África Subsaariana, onde as taxas de matrícula e conclusão seguem inferiores.

 

Na Ásia Central e no Sul da Ásia, o avanço foi notável: de 68 mulheres para cada 100 homens matriculados em 2000, essas regiões chegaram ao equilíbrio de gênero em 2023. No entanto, ainda há desequilíbrio na pós-graduação, já que as mulheres representam apenas cerca de um quarto dos cargos de liderança sênior no meio acadêmico.

 

Desigualdade e iniciativas para acesso

A Unesco identificou que, mundialmente, equidade, qualidade e financiamento permanecem como grandes desafios para quem busca o ensino superior. Apenas um terço dos países conta com programas dedicados à inclusão de grupos sub-representados. Países como África do Sul, Chile, Coreia do Sul, Filipinas, Itália, Japão, Maurício e México implementaram políticas para reduzir ou eliminar taxas para esses públicos.

 

Mesmo com crescimento de nove vezes nas matrículas de pessoas refugiadas entre 2019 (1%) e 2025 (9%), obstáculos importantes persistem, principalmente relacionados ao reconhecimento de qualificações ausentes ou de difícil verificação, sobretudo no Sul Global.

 

Soluções da Unesco para qualificação de refugiados

Para enfrentar o problema do reconhecimento de diplomas, a Unesco criou o Passaporte de Qualificações, instrumento voltado ao reconhecimento de certificações acadêmicas, profissionais e vocacionais de pessoas refugiadas e deslocadas à força. Atualmente, o passaporte está em aplicação no Iraque, Quênia, Uganda, Zâmbia e Zimbábue, com perspectiva de ampliação e já beneficiando centenas de candidatos.

 

Tecnologia, IA e qualidade do ensino

O relatório destaca ainda que, embora tecnologias digitais e inteligência artificial (IA) estejam transformando métodos de ensino e aprendizagem, apenas uma em cada cinco instituições de ensino superior deve contar, até 2025, com políticas formais voltadas ao uso de IA.

 

O documento da Unesco conclui que o rápido crescimento do número de universitários nas últimas décadas intensificou a pressão sobre os sistemas de ensino superior. Isso evidencia a necessidade de garantir padrões de qualidade e, simultaneamente, ampliar o acesso para grupos vulneráveis, com foco em formatos de financiamento equitativos e sustentáveis.